Jogadores contam histórias do preconceito enfrentado na Europa

Futebolistas negros relatam casos de racismo e xenofobia envolvendo torcedores, técnicos e outros jogadores

Junior temporario

Ex-jogador Junior

Júlio Bernardes/Jornal da USP

A presença do racismo na trajetória de jogadores de futebol brasileiros negros no futebol europeu é mostrada nas histórias orais de vida colhidas por Marcel Tonini, em pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Apesar do tema ser tabu no Brasil, o estudo superou o receio dos jogadores, a maioria com passagem pela Seleção Brasileira, e revelou episódios de racismo e xenofobia vividos pelos atletas e seus familiares, envolvendo torcedores, técnicos e outros jogadores. A pesquisa constatou maior conscientização dos atletas, mas aponta para a necessidade de ações coletivas contra o preconceito.

O objetivo do estudo era aprofundar a discussão sobre o racismo no futebol, iniciada pelo pesquisador em seu trabalho de mestrado, sobre dirigentes negros em diversas posições dentro do universo do futebol (jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, jornalistas, torcedores e intelectuais). “Numa das entrevistas, Junior, ex-jogador do Flamengo, disse que, quando atuava no Torino da Itália, ao ser avisado de uma manifestação racista de torcedores, declarou que isso não o atingia, porque a miscigenação no Brasil era total”, relata o historiador.

“A partir da daí, surgiu a ideia de discutir o mito da democracia racial, associada com a questão das migrações internacionais e da globalização, por meio de entrevistas sobre trajetórias de vida e profissional, usando a metodologia da história oral”. Ao todo, foram coletadas 16 histórias orais de vida, de uma a duas horas de duração, com jogadores que atuaram na Itália, Espanha, França, Alemanha e Inglaterra, em diferentes épocas. Entre os entrevistados, 15 jogaram na Seleção Brasileira, oito atuaram em Copas do Mundo e cinco foram campeões.

Betão ouviu do treinador do Dínamo, de Kiev (Ucrânia), que ele e os outros brasileiros, por serem do Brasil e ganharem muito bem, deveriam mostrar mais futebol”, O mais velho é Jair da Costa (Copa de 1962), que jogou por dez anos na Itália. Também falaram Paulo Cézar Caju, Luis Pereira, Junior, Júlio César, João Paulo, Djalminha, Paulo Sérgio, Amoroso, Betão, Gilberto Silva, Cláudio Caçapa, Zé Maria, Roque Júnior, Ewerthon e Denilson. O historiador relata que, entre os atletas que jogaram entre as décadas de 1960 e 1970, são mais comuns as referências à democracia racial.

“Na ocasião, esse mito era amplamente aceito no imaginário social dos brasileiros e apenas contestado na academia e nos movimentos negros”, diz. “A única contestação veio do Paulo Cézar Caju, que já era muito consciente nos tempos de jogador. Nascido pobre, viu a mãe ser discriminada, foi adotado por um técnico com padrão de vida mais elevado, viajou muito, e levou sua indignação com o racismo para o discurso, sendo muito influente entre seus colegas”.

Conscientização
Entre os jogadores que atuaram a partir dos anos 1990, Tonini observa que há mais conscientização sobre o racismo, ainda que não haja um envolvimento maior com o movimento negro. “Uma exceção foi o volante Denilson, que atuou cinco anos na Inglaterra e disse não ter percebido isso na Europa”, observa.

Roberto Carlos, ex-lateral da seleção brasileira também foi vítima do racismo, porém na Rússia.“Em alguns casos, há receio de entrar em polêmica e comprometer a própria carreira. Não se pode julgar, evidentemente, devido à origem pobre, em meio à fome e à violência, com uma série de carências na infância, sem oportunidades de se educar, onde a grande preocupação em seu caso, e possivelmente em muitos outros, era sobreviver. De um modo geral, há mais consciência, graças aos avanços na educação, porém o discurso da democracia racial ainda é aceito pela sociedade”.

Os relatos reunidos pelo historiador mostram que, entre os europeus, havia um limite muito sutil entre racismo e xenofobia, em especial até a metade da década de 1990, quando os países limitavam a presença de estrangeiros a um, dois ou três jogadores por equipe. “Isso fazia com que fossem contratados atletas renomados, que recebiam altos salários. Isso causava um estranhamento dentro da equipe.

Os jogadores mencionaram várias vezes que os companheiros pensavam que eles iam ocupar seu lugar, ainda que não comentassem”, afirma Tonini. “Três atletas contaram que, logo no primeiro treino, os outros jogadores nacionais ou não passavam a bola durante a atividade, ou a passavam forte para ver se dominariam, ou a chutavam em suas costas antes da atividade começar, para ver a reação. Nesses casos, o conflito era pelo fato de haver um estrangeiro de nome no time”.

Embora falar abertamente fosse pouco comum da parte dos jogadores, era mais frequente entre os técnicos, diz Tonini. “Por exemplo, o zagueiro Betão ouviu do treinador do Dínamo, de Kiev (Ucrânia), que ele e os outros brasileiros, por serem do Brasil e ganharem muito bem, deveriam mostrar mais futebol”, conta. “A princípio, os atletas pensavam apenas no racismo dos torcedores, mas durante os depoimentos surgiram relatos de racismo e xenofobia vindos de treinadores, colegas de equipe e colegas de outros times.”

Na espanha, o lateral Daniel Alves come uma banana que foi atirada ao campo por torcedores rivais.Segundo Tonini, os relatos dos jogadores mostram que as manifestações racistas por parte de torcedores, como insultos, gestos e faixas, são muito frequentes na Europa, especialmente em algumas regiões, como Verona, na Itália, ou no interior da Espanha. “Embora não tenham dito, fica claro que são tão comuns que eles de certa forma se habituam a essas situações, como se fizessem parte da paixão do torcedor”, afirma. “No entanto, quando isso vem do técnico ou de um colega de equipe, pela proximidade, eles ficam indignados e se sentem humilhados”.

Tonini aponta, a partir da análise dos depoimentos, que as reações dos jogadores ao racismo são principalmente individuais. “As mais comuns são demonstrar sua importância na equipe por meio da dedicação ao trabalho, impor-se pelo talento, com dribles e gols, e usar a ironia, rindo ou beijando a pele ao comemorar um gol”, relata.

“No entanto, a melhor maneira de combater o racismo contra os negros talvez seja uma reação coletiva, ou seja, os jogadores se unirem e tomarem atitudes conjuntas, como não jogar em cidades onde há manifestações preconceituosas da torcida, por exemplo. Isso levaria a uma divulgação e um efeito muito maiores.”