Equoterapia estimula crianças com autismo

Estudo de fonoaudióloga conclui que o cavalo exerce papéis importantes para os pacientes

Equoterapia 3 temporario

Silvio Anunciação/Jornal da Unicamp

Após acompanhar quatro crianças diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) que participaram de sessões de equoterapia, a fonoaudióloga Paloma Rocha Navarro concluiu que o cavalo exerceu diversos papéis importantes para os pacientes. Para Paloma Navarro, que é equoterapeuta e desenvolveu estudo recente sobre o tema na Unicamp, contrariamente ao que propõe a literatura da área, o cavalo não funcionou apenas como um instrumento, mas foi, em alguns casos, o próprio agente terapêutico transformador.

Durante seu estudo, a pesquisadora observou que o animal, normalmente reduzido a um instrumento que intermedia a transferência do vínculo da criança para o fonoaudiólogo, trouxe benefícios do ponto de vista da aquisição de linguagem e sobre a percepção e o reconhecimento do próprio corpo pela criança. Além disso, de acordo com ela, outros benefícios foram o estímulo ao tato e ao chamado sistema vestibular, responsável pela manutenção do equilíbrio. O estímulo ocorre devido ao efeito cinesioterápico promovido pelo passo do cavalo. Os resultados ainda demonstraram que a equoterapia contribuiu para que as crianças compreendessem o próprio corpo psiquicamente, o que autora chama de conformação corporal psíquica.

“Observamos nas crianças diagnosticadas com esse transtorno autista que o animal proporciona novas sensações e interações de diversas maneiras. E, a partir disso, pode ocorrer um desenvolvimento da linguagem. Nos casos analisados, o cavalo funcionou ora como um pressuposto ser de linguagem, ora como contenção de atenção, ora como agente cinesioterapêutico, ora como possibilidade de favorecer a conformação corporal psíquica da criança”, conclui.

A fonoaudióloga Paloma Rocha Navarro, autora da tese: “A equoterapia focalize a importância do cavalo como um agente capaz de permitir que a criança sinta e reconheça o seu próprio corpo”.A fonoaudióloga explica que crianças com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam dificuldades de interação social, alterações comportamentais, deficiências no domínio da linguagem e comunicação, além de sensibilidades sensoriais. “A linguagem é sempre o ponto crucial para o diagnóstico de TEA, representando um aspecto clínico fundamental no acompanhamento das crianças. É, sobretudo, com o objetivo de buscar a aquisição da linguagem e fala que os médicos recomendam terapias que possam auxiliar no percurso do filho com essa patologia. Na pesquisa eu procurei compreender, portanto, o funcionamento linguístico destas crianças que passam por sessões de equoterapia”, explica.

O estudo de Paloma integrou sua tese de doutorado defendida recentemente junto ao Programa de Pós-Graduação em Linguista do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. A pesquisa foi orientada pela professora Maria Irma Hadler Coudry, que atua no Departamento de Linguística do IEL. Houve coorientação da docente Sonia Maria Sellin Bordin, do mesmo departamento da unidade. Paloma é terapeuta do Centro de Equoterapia de Campinas (EQUUS). As quatro crianças analisadas no estudo, que não tiveram a identidade revelada, participaram de atendimentos no Centro, localizado no distrito de Barão Geraldo. Os pacientes foram analisados por períodos que variam de 1 a 4 anos.

O corpo na fonoaudiologia
A fonoaudióloga informa que seu estudo analisou, entre outros aspectos, a relação entre o corpo da criança diagnostica de TEA e o corpo do cavalo. Nesta perspectiva, Paloma procurou compreender como esse corpo da criança se organiza no processo de aquisição de linguagem. “A equoterapia focaliza a importância do cavalo como um agente capaz de permitir que a criança sinta e reconheça o seu próprio corpo. Essa noção de corpo é ampliada na minha pesquisa e passa a se ressignificar como um outro da linguagem”.

Neste ponto, a estudiosa critica a concepção de corpo com o qual a fonoaudiologia tradicional trabalha. Trata-se, segundo ela, de um corpo que remete somente à cabeça e ao pescoço. “No entanto, a partir dos achados da minha pesquisa, precisamos considerar o corpo como um todo, não só partes de um corpo quando estamos trabalhando com linguagem no âmbito do Transtorno do Espectro Autista”, considera.

Neurolinguística discursiva
Criança com Transtorno do Espectro Autista durante sessão de equoterapia em Barão Geraldo, distrito de Campinas: cavalo desempenha função de agente terapêutico transformador.Os estudos conduzidos pela fonoaudióloga e equoterapeuta inserem-se no âmbito teórico da Neurolinguística Discursiva, área que se fundamenta em uma perspectiva socio-histórica de linguagem. A pesquisadora explica que Neurolinguística Discursiva contempla questões sobre a constituição do sujeito e sua subjetividade, sobre a língua, a linguagem, o cérebro, o corpo, o sistema sensorial e a atenção.

“A partir dos resultados e benefícios do tratamento, podemos concluir que é possível propor a Neurolinguística Discursiva como norteador teórico, metodológico e prático da atuação do fonoaudiólogo no contexto da equoterapia, bem como de outros profissionais da área da saúde no trabalho com a linguagem de crianças portadoras ou não de diferentes patologias”, sustenta.

Paloma Navarro pondera que a pesquisa também teve um viés multidisciplinar. Neste sentido, ela ressalva que trabalhou a interface com diferentes áreas como a fonoaudiologia tradicional, a fonoaudiologia norteada pela Neurolinguística Discursiva, a equoterapia, e, ainda, determinados estudos sobre o TEA infantil no contexto da medicina e da psicologia.

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