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Em novembro de 1955, crise fez Brasil ter 3 presidentes numa única semana

Em novembro de 1955, os brasileiros assistiram a uma onda de conspirações políticas e militares que culminou em dois golpes de Estado fracassados e dois contragolpes bem-sucedidos

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Foto: Revista Cruzeiro

O cruzador Tamandaré, com Carlos Luz a bordo, no Rio: presidente interino foi deposto e fugiu por mar para criar governo paralelo.

O Rio, então capital, foi palco de cenas de guerra, com tanques nas ruas e tiros de canhão na praia. No Palácio do Catete, houve uma dança das cadeiras. Numa única semana, o Brasil teve três presidentes — Café Filho, Carlos Luz e Nereu Ramos.

Foram momentos decisivos da história nacional. O Arquivo do Senado, em Brasília, guarda documentos que ajudam a entender o acontecido. Os papéis, que contêm os discursos e as decisões dos senadores, mostram que o Senado teve função ativa no desenrolar dos eventos.

Um dos episódios mais dramáticos ocorre na manhã de 11 de novembro de 1955, quando os fortes do Leme e de Copacabana abrem fogo contra o navio de guerra Tamandaré. A bordo, está Carlos Luz. O presidente acaba de ser deposto, mas não se dobra.

A população, desesperada com os estrondos, estende lençóis brancos nas janelas dos edifícios da Avenida Atlântica. Nenhum disparo acerta o cruzador, e o navio não revida.

O Tamandaré escapa porque consegue emparelhar com um cargueiro que deixa a Baía de Guanabara e se escudar dos tiros. Luz, acompanhado de mais de mil militares, navega rumo a Santos (SP), para organizar um governo de resistência.

O 11 de novembro é o ápice de uma crise que começa muito tempo antes. Vice de Getúlio Vargas, Café Filho assume o poder após o suicídio do titular, em agosto de 1954.

Getúlio decide se matar para frear um iminente golpe encabeçado pela UDN (partido da oposição) e pelas Forças Armadas que o apearia da Presidência. Os dois grupos abominam a política nacionalista e trabalhista de Getúlio.

O suicídio do presidente e a posse do vice adormecem os impulsos golpistas. Café engaveta as políticas getulistas e escolhe a UDN para ocupar praticamente todos os ministérios.

A calmaria dura pouco. Em 3 de outubro de 1955, o país elege Juscelino Kubitschek presidente e João Goulart vice. O resultado da votação desperta os conspiradores de 1954.

JK e Jango pertencem respectivamente ao PSD e ao PTB, fundados por Getúlio. JK, à frente de Minas Gerais, foi o único governador a participar do velório do presidente. Jango foi ministro do Trabalho de Getúlio e perdeu o cargo por pressão dos militares, após tentar dobrar o valor do salário mínimo.

A UDN e parte das Forças Armadas, que não têm dúvida de que JK e Jango desengavetarão as bandeiras do getulismo, preparam-se para dar um golpe, impedindo a posse dos vitoriosos e tomando o poder.

Maioria absoluta
Novembro de 1955 já começa tenso. No dia 1º, num evento público, o coronel Jurandyr Mamede faz um virulento discurso contra JK e Jango. O militar classifica a vitória de “mentira democrática” e diz que eles não podem assumir o poder.

O episódio ocorre três meses antes da posse, marcada para 31 de janeiro de 1956, e ganha enorme repercussão nos jornais.

A principal alegação dos conspiradores é que JK não venceu com a maioria absoluta (mais de 50%) dos votos. O mineiro obteve 36%, ligeiramente à frente dos 30% do general Juarez Távora, o candidato apoiado pela UDN e pelos militares.

As leis da época, porém, são claras: se exige simplesmente a maioria dos votos e não há segundo turno.

A lista de argumentos continua. Os golpistas dizem que houve fraudes na votação e acusam de ilícito o apoio dado a JK pelo Partido Comunista do Brasil (PCB, depois Partido Comunista Brasileiro), que estava na clandestinidade.

Um dos poucos ministros de Café Filho não filiados à UDN é o general Henrique Lott, titular do Ministério da Guerra (hoje Comando do Exército).

Apesar de ter apoiado a candidatura do general Távora, Lott tem uma postura legalista. Ele defende que o resultado das urnas deve ser respeitado e proíbe a caserna de aderir ao golpismo.

O ministro participa do evento do dia 1º e não gosta da indisciplina de Mamede. Lott, entretanto, não pode puni-lo porque o coronel está cedido à Escola Superior de Guerra, subordinada à Presidência. O presidente teria de devolvê-lo ao Exército.

Quando procura o Catete para fazer o pedido, Lott se inteira de que Café Filho acaba de sofrer um “ligeiro distúrbio cardiovascular”, segundo o boletim emitido pela Presidência.

Os médicos preveem que Café precisará passar vários dias hospitalizado. No dia 8, o mandatário se licencia e transmite o poder para o presidente da Câmara, Carlos Luz.

No mesmo dia, o senador Paulo Fernandes (PSD-RJ) sobe à tribuna do Palácio Monroe, a sede do Senado, e faz uma avaliação preocupante do momento:

— Persistem grupelhos de políticos inconformados com os resultados do pleito. Eles fazem de tudo para tumultuar a situação e agitar o ambiente político.

No dia 10, Lott consegue uma audiência com o presidente interino. Luz, porém, responde que não vê motivos para punir Mamede. Sentindo-se desautorizado e desprestigiado, Lott pede demissão. O pedido é aceito e o presidente anuncia como sucessor o general Álvaro Fiúza de Castro. Lott negocia sua saída para o dia seguinte (Ricardo Westin/Ag. Senado/Arquivo S).

Chá de cadeira

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Foto: Acervo Marechal Lott

O general Lott, responsável por frear os golpes de 1955 e preservar a democracia

À noite, na cama, Lott reflete sobre todos os acontecimentos. Lembra que Carlos Luz correu para cumprimentar efusivamente Mamede após o desafiador discurso do dia 1º. Pensa que o chá de cadeira que Luz lhe impôs naquele dia na antessala do gabinete presidencial — duas horas de espera — foi pura provocação. Acha estranho ter aceitado a demissão tão rapidamente e ainda por cima anunciado de imediato o nome do novo ministro. Recorda, por fim, que o general Fiúza de Castro foi protagonista do movimento que levou Getúlio ao suicídio.
Para Lott, está claro: Luz quer se livrar do ministro da Guerra, que é legalista e tem as tropas nas mãos, e assim abrir caminho para um golpe militar que impedirá a posse de JK. O ministro demissionário, então, corre para orquestrar um contragolpe. Na madrugada do dia 11, mobiliza quartéis de várias partes do país. Na capital, cerca o Catete.
Os militares estão rachados. Uma parte apoia o legalismo do general Lott. A outra adere aos golpistas e ajuda Luz na fuga para Santos. Entre os conspiradores a bordo do cruzador Tamandaré, estão o coronel Mamede e o jornalista e deputado Carlos Lacerda (UDN).
Ainda no dia 11, Lott negocia com a Câmara e o Senado a derrubada formal de Carlos Luz. Em sessões tumultuadas, os deputados e os senadores aprovam o impedimento. Luz é presidente por três dias, o mandato mais breve da história nacional.
Com o presidente morto, o vice doente e o presidente da Câmara impedido, toma posse no Catete naquela noite o seguinte na linha de sucessão: o vice-presidente do Senado, Nereu Ramos. Em menos de uma semana, é a terceira pessoa na Presidência.
Segundo a Constituição da época, o vice-presidente da República se torna automaticamente o presidente do Senado — uma espécie de cargo honorífico. É por isso que quem aparece depois do presidente da Câmara na linha de sucessão não é o presidente do Senado, mas o vice da Casa.
No Palácio Monroe, os senadores apoiam o colega. Afirma Lima Teixeira (PTB-BA):
— À frente do governo nesta hora grave da nacionalidade, o ilustre vice-presidente desta Casa certamente agirá com espírito conciliador, equilíbrio e bom senso para debelar esta crise sem derramamento de sangue.
O senador Kerginaldo Cavalcanti (PSP-RN) concorda:
— Penetramos nos umbrais da inconstitucionalidade quando da deposição branca do senhor Getúlio Vargas, que dela se livrou pelo suicídio. Vivemos o segundo episódio do drama político da inconstitucionalidade. É preciso salvar o regime e as instituições. Estou convencido de que o senhor Nereu Ramos, e somente ele, poderá conciliar os ânimos.
Carlos Luz não consegue desembarcar em Santos. Quando chega, o porto já está ocupado pelos soldados de Lott. A ideia da resistência cai por terra.
O contragolpe de 11 de novembro consegue abortar o golpe da UDN, de parte dos militares e do próprio Luz. A sanha, no entanto, continua. Os conspiradores começam a tramar o segundo golpe (Ricardo Westin/Ag. Senado/Arquivo S).

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