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Negros e brancos de alta renda moram em locais distantes e distintos

Com dados do IBGE e entrevistas, estudo mostra que existe separação por classe e raça nos bairros nobres de São Paulo

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens

As relações sociais e os locais onde acontecem ficam em um diâmetro em torno do distrito de residência dos entrevistados e determinam a amplitude dos deslocamentos e das relações.

Valéria Dias/Jornal da USP

Distantes e distintos. Assim poderiam ser definidos os locais de residência de negros e pardos das classes média e alta da Região Metropolitana de São Paulo em relação aos locais de residência de brancos na mesma situação financeira. Os dados são da pesquisa realizada pelo sociólogo Danilo Sales do Nascimento França a partir de entrevistas e da análise de dados dos Censos 2000 e 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nas classes baixas, segundo o pesquisador, negros e brancos vivem muito próximos entre si. Mas conforme vão sendo consideradas as classes média e alta, percebe-se um distanciamento nos locais de residência. “Brancos de classe média e alta moram mais naqueles bairros nobres, no chamado quadrante sudoeste – uma aglomeração de bairros nas zonas sul e oeste, como Morumbi, Pinheiros e Alphaville. Ao passo que os negros de classe média e alta moram mais em bairros distantes do centro, principalmente na chamada periferia consolidada”, explica França.

A ideia da pesquisa, realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, era avaliar em que medida há uma distância na localização das residências de negros e pardos com os locais de moradia de brancos em classes sociais semelhantes, diferenciando a segregação por raça da segregação por classe. “Observamos as duas”, destaca o pesquisador.

França lembra que existe um argumento de que essa segregação não seria tão relevante pois esses negros e pardos de classe média e alta teriam recursos materiais para residir em locais nobres da cidade.

Em contraposição a esse argumento, o pesquisador realizou entrevistas com 28 pessoas (negros, brancos, homens e mulheres) de classes média e alta, moradores de três bairros da cidade de São Paulo: Itaim Bibi (bairro de classe alta/média), Tatuapé (bairro de classe alta/média) e São Miguel Paulista (classe baixa). Essas pessoas eram proprietárias de estabelecimentos comerciais, empregadores ou exerciam profissões de nível superior.

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Foto: Jorge Maruta/Jornal da USP

Vista aérea do Bairro de São Miguel Paulista.

O objetivo do estudo foi avaliar em que medida o local onde essas pessoas residem influencia a amplitude de circulação delas e as relações sociais que estabelecem na cidade. As principais perguntas do questionário eram: aonde você circula pela cidade; quais locais frequenta; e onde moram as pessoas com as quais você se relaciona. As entrevistas demonstraram que, de fato, as relações e os locais citados ficam em um diâmetro em torno do distrito de residência dos entrevistados e determinam a amplitude dos deslocamentos e das relações.

“Então, qual a consequência disso, de a gente juntar os dados de que negros e brancos de classe média e alta moram distantes, com esse dado do local de residência como determinante para os deslocamentos e as relações? É que a distância entre negros e brancos de classe média e alta não é simplesmente física e residencial, mas é também uma distância de não frequentar os mesmos locais, de não se encontrarem pela cidade e de não desfrutarem das oportunidades da cidade de forma equânime, porque frequentam locais completamente diferentes. E também é uma distância no sentido de relações sociais, pois as pessoas não se cruzam e as redes não se sobrepõem”, explica o pesquisador.

Onde você gostaria de morar?

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Foto: Francisco Anzola/Flickr.com

Vista do bairro Itaim Bibi, um dos que são majoritariamente habitados pela classe média/alta branca.

O pesquisador conta que, inicialmente, o bairro do Tatuapé não estava previsto na pesquisa. Mas ele percebeu que os moradores de São Miguel Paulista citavam o bairro paulistano de classe média e alta diante da pergunta: “Se você não tivesse limitação material e pudesse comprar uma casa em qualquer lugar da região metropolitana de São Paulo, onde seria?”. A resposta era Tatuapé e não Morumbi, Alphaville ou Jardins.

Tatuapé é o primeiro bairro nobre mais próximo de São Miguel Paulista. “Observo uma certa limitação de aspirações residenciais, como se diz em estudos sociológicos, por parte dessas pessoas. A tendência é que, ao longo dos anos, o padrão não mude muito”, diz.

França destaca que muitas conclusões de estudos sociológicos sobre relações raciais no Brasil dizem que a sociedade brasileira é marcada pela segmentação entre uma classe média e alta branca e uma classe baixa multirracial, formada por negros e brancos. E que essa segmentação poderia ser observada nos estudos sobre a dificuldade de ascensão social, por parte de negros, em chegar até essas classes em termos de ocupação do espaço.

De acordo com o sociólogo, uma das conclusões que o estudo está mostrando é que essa segmentação também pode ser observada no espaço, na medida em que os negros, mesmo sendo de classe média e alta, têm uma maior dificuldade de frequentar e interagir com pessoas dos locais de concentração residencial de classes média e alta brancas.

A pesquisa aponta para a necessidade da realização de mais estudos a fim de responder algumas questões, entre as quais: como é o processo de mudança de aquisição de imóvel de quem ascende socialmente? Quais dificuldades os negros enfrentam? Sobre os negros que moram fora das áreas nobres, qual a relação deles com a cidade? Há condomínios voltados para classes não altas – os negros vão para lá? Além da realização de pesquisas com comparações regionais, como Rio de Janeiro, Salvador e as cidades do Sul do País.

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