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Radiografia do ativismo indica revitalização do papel político das cidades

Pesquisa destaca movimentos que vão de hortas urbanas e coletivos que reivindicam espaços públicos até grupos em prol da mobilidade sustentável

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Foto: 350.org via Flickr

Pesquisa estudou a relação entre movimentos sociais urbanos e as novas tecnologias.

Ignacio Amigo/Jornal da USP

Cansados de esperar pela ação do poder público na solução dos problemas urbanos, muitas pessoas vêm se organizando em coletivos e grupos de pressão para impulsionar mudanças nas cidades. E nessa luta, as tecnologias da informação e comunicação, como as redes sociais e os aplicativos de mensagens, estão tendo um papel muito importante.

Mas quem são esses cidadãos e como é que eles utilizam as tecnologias para lutar pelas causas que defendem? Essas são duas das perguntas que a pesquisadora Juliana Zuquer tentou responder na sua tese de doutorado, defendida recentemente na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP sob a supervisão da professora Gabriela di Giulio.

“O estudo parte de uma premissa relevante, que tem norteado os estudos sobre ambiente urbano e qualidade de vida, que é o potencial que as cidades têm para construírem soluções para problemas locais e globais”, afirma Gabriela, ao ressaltar o papel político, revitalizado, das cidades e como elas se tornaram locais importantes de experimentações.

Para ela, essas experimentações podem surgir tanto de cima para baixo – ou seja, partir dos próprios governantes, quando se propõe mudanças na cidade – como também de baixo para cima. “Há um movimento bastante forte de baixo para cima tentando re-entender o que é a cidade no século 21”.

O contexto em que é feito o trabalho também diz muito sobre sua relevância. De acordo com um estudo da ONU, no ano 2050 dois terços da população mundial viverá em cidades. E é consenso que o modelo atual de desenvolvimento não é sustentável, sendo necessárias alternativas que garantam a segurança alimentar, a qualidade do ar e da água, assim como o respeito a direitos básicos, como moradia digna e mobilidade.

A tese explorou diferentes movimentos sociais na cidade de São Paulo por meio de entrevistas estruturadas com representantes de vários coletivos. A partir de uma abordagem de “bola de neve”, em que cada entrevistado indica outra pessoa, Juliana entrevistou 27 integrantes de 22 coletivos.

Assim, partindo de entrevistados envolvidos com hortas urbanas, ela acabou nos coletivos que reivindicam o uso dos espaços públicos, passando no caminho pelas associações em prol da mobilidade urbana sustentável. “Percebemos que esses grupos se articulam entre eles”, explica Juliana. “Eles não estão só em horta, só em mobilidade, mantêm um ativismo forte no que acreditam. Eles se articulam e se conhecem”.

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Juliana Zuquer: além de atuar nos coletivos, ativistas também participam
da esfera política tradicional.

O recorte metodológico da pesquisa também mostrou um perfil muito específico de quem está engajado nos movimentos sociais na cidade de São Paulo. São, na maior parte, mulheres, adultas, com renda acima de 10 salários mínimos, com filhos, autônomas ou realizando trabalhos informais e que se formaram em universidades públicas ou federais. Além disso, todas moraram no exterior e voltaram, e afirmam explicitamente que trouxeram para cá práticas de sucesso presenciadas fora do País.

Outra característica dos ativistas é que, além de atuar nos coletivos, eles também participam da esfera política tradicional. “Tanto é que muitos dos entrevistados fazem parte dos conselhos de tomada de decisão de suas regiões”, diz Juliana. “São pessoas que sabem muito bem como funciona a estrutura. Elas não acreditam mais na estrutura, mas sabem que devem estar presentes para não perder espaço”.

Ao tentar entender como os movimentos utilizam as tecnologias de informação e comunicação, a pesquisadora se deu conta de que os ativistas usam muito as redes sociais, mas não da mesma forma que a maioria da população. “Eles não têm nada pessoal publicado, nem sequer uma foto tomando sorvete ou com a família”, conta Juliana.

Os ativistas fazem um uso bem mais político das redes sociais: para articular as suas discussões, recrutar voluntários, angariar recursos ou pressionar o governo. Isso já foi observado em pesquisas em outros países, sugerindo que as novas tecnologias não só aceleram e facilitam a comunicação, como também mudam a forma como nos relacionamos com nosso entorno.

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Gabriela di Giulio e Juliana Zuquer. Para professora da FSP, “há um movimento bastante forte de baixo para cima tentando re-entender o que é a cidade no século 21”.

Além da pesquisa mais aprofundada na cidade de São Paulo, a tese também inclui uma série de entrevistas com ativistas de Roma, na Itália, uma cidade que, de acordo com a Juliana, tem problemas muito semelhantes aos de São Paulo. “A ideia não foi a de fazer um comparativo, Roma versus São Paulo, mas tentar entender o que acontecia em Roma nessa mesma lógica, e trazer algumas evidências do que estávamos vendo aqui em São Paulo”, explica Juliana.

Feita esta ressalva, a pesquisa apontou tanto paralelismos como diferenças importantes entre as duas cidades. Por exemplo, tanto em Roma como em São Paulo os ativistas sabem que têm tanto que ocupar os espaços como estar nos lugares de tomada de decisão. Porém, enquanto em São Paulo os movimentos estão mais focados em temáticas específicas (praças, hortas, mobilidade), em Roma existe uma visão mais integrada da cidade, em que as temáticas se confundem.

Para Gabriela, o trabalho de Juliana nos ajuda a refletir sobre temas fundamentais para o futuro das cidades, e mapear importantes questões: “o diálogo entre o que é o urbano no século 21 e as novas tecnologias, e como isso têm sido mobilizado pelos atores, como as pessoas tentam fazer uma cidade diferente nesse começo do século”.

Segundo ela, os dados nos permitem colocar em xeque muitos pontos: “o que é que estamos entendendo como democracia agora? O que é que é participação pública? De fato estamos caminhando para uma governança, no sentido de compartilhamento de poder, ou só temos algumas janelas de oportunidade, que não reverberam em mudanças propriamente?”.

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