Os mano e as mina na mira dos homi

Se você mora em São Paulo e nunca foi à festa de final de ano na Avenida Paulista, deveria fazer a experiência, pelo menos uma vez. Até para entender o choque das famílias de bem com aquilo que ocorreu na sua praia privativa. Ou melhor, com aquilo que as famílias de bens pensam ter perdido.

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"A mais Paulista das avenidas".

Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes(*)/Jornal da Unicamp

Faz talvez uns dez anos que uma onda está crescendo. A “mais paulista das avenidas” era assim chamada porque refletia o orgulho grã-fino dos Jardins, a tradicional zona chique da cidade. Aos sábados e domingos, nas suas largas calçadas, jovens, maduros e idosos desfilavam com roupas de ginástica de marca, óculos ray-ban e cachorrinhos elegantes. Elegância discreta de certas esquinas.

Na festa de 31 de dezembro a paisagem era um pouco diferente, mas ainda assim dominada por jovens da chamada classe média bem vestida. Daí começaram a acontecer coisas na grande metrópole. As conexões do metrô, os corredores de ônibus, por exemplo. As novas vias, necessárias para conduzir gado humano para a ordenha diária de sobrevalor, traziam também o suor periférico para o ambiente perfumado dos Jardins.

Os “manos e minas” vinham dos quatro pontos distantes, dos bairros periféricos ao leste, norte, sul e oeste. Eram diferentes da visão estereotipada da pobreza. Juventude bem vestida, mas a seu modo, um modo que choca a antiga plateia de sangue azul, descendente de João Ramalho e da princesa Bartira. A elite agora encara a patuleia no seu jardim. Roupas muito coloridas, saias justas, bijuterias espalhafatosas e abundantes, batom forte, cabelo arrepiado. E, principalmente, um comportamento efusivo de novo tipo, escandaloso para os padrões de antes.

Shoppings passaram a receber os manos e as minas da periferia.Gente diferenciada, aquele tipo que a gente de família ironizava com a expressão “churrasco na laje”. Invadiram a praia paulistana mais famosa, reino dos bancos e corporações durante a semana, passarela de poodles e chihuahuas nos domingos. Alguma coisa acontece no meu coração – e não é mais na Avenida São João, dos salões de chá que a aristocracia já havia abandonado.

Para exasperar ainda mais o velho público da praia protegida, a administração municipal resolve que a avenida feche para veículos aos domingos. É quase um convite ao churrasquinho da gente diferenciada. Com a paranoia peculiar da corte, muitos dos antigos frequentadores devem pensar em seus gatinhos fritando sobre as brasas dos novos comensais. Que horror! Barbárie! Onde isso vai acabar?

Sim, piorou. Afinal, antigamente, nos finais de ano a avenida até que podia ser tomada pela patuleia. Paciência. A nobreza saía da cidade. Para a praia, as montanhas, os resorts. Mas, agora é todo final de semana? O que acontece ali, na “mais paulista das avenidas” é um retrato meio torto mas representativo daquilo que se expandia no resto do país e, em alguns lugares, já era visto com pavor.

Professor Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes.Faz tempo, Brizola começou a abrir caminhos para as praias e a plebe da zona norte vazou para Copacabana e Ipanema. Alguns loiros e loiras se espantaram. A reação foi, contudo, um pouco mesclada. Alguns guris e gurias se enturmaram, é verdade, começaram a jogar futebol com os “pivetes”. Além de tudo, rolava um barato – e uma parte dos manos era vista como o canal para obter o sonho. Mas a parte mais rançosa da nobreza local ferveu, resmungou. Volta e meia, explode em chamamentos à ordem fardada.

Coisa parecida aconteceu em outros cantos – Marcelo Deda é até hoje amaldiçoado, mesmo depois de morto, por ter aberto uma pista para a praia, por onde fluíram os pobres periféricos de Aracaju. Esse talvez seja um retrato do Brasil, não apenas nas praias e locais de lazer. Retrato do Brasil com a chegada dessa gente bronzeada no terreno outrora privativo da juventude dourada, dos maduros endinheirados e da velha guarda temerosa. Os manos e as minas, bem como seus pais, tios e avós, agora chegam a universidades, aeroportos, shopping centers. E, para piorar, alguns deles acham que têm direito a opinar sobre a cidade e o país. Deus sabe onde isso vai parar!

Houve época em que a chamada elite branca vislumbrou uma saída engenhosa para a convivência com a escravaria liberta e mal encaixada na nova ordem. Alguns sonharam com o “branqueamento” como uma forma de resolver o “problema” da cor da pele, divisor social impossível de negar. Em muitos lugares do mundo a divisão social foi racializada – não é novidade. Ou “geografizada” – o “sale arabe” na França, os cabeças de turco na Alemanha, os “terroni” do sul no norte da Itália, aquele recanto que sonha ser Suíça. Ou os nordestinos, cabeças-chatas, na província de Piratininga que um dia pensou ser a Califórnia e hoje se contenta com Miami.

Uma versão inovadora do “branqueamento” parece ser a miragem da “nova classe média”. O outrora sujo peão vira classe média através do acesso a certos bens de consumo. Mas a solução tem aqueles problemas. Aeroportos que parecem rodoviárias, faculdades “nossas” invadidas por “eles”, rolezinhos dos periféricos nos shoppings de mauricinhos e patricinhas. E o pior não é que consumam e nos incomodem com sua presença – o pior é que, cada vez mais, eles “se acham”.

Festa de Réveillon na avenida Paulista.O freio de arrumação está agora anunciado. O pessoal da Casa Grande, devidamente alinhado com a Casa Branca, resolveu que a festa acabou, antes de esquentar. Primeiro, baixam pacotes de “reformas” para acabar com essa estória de “viver acima dos meios”. Austeridade, sacrifício... seletivo, é claro, que a sala de jantar dos palácios está bem frequentada. Jatinhos e iates continuarão a ser subsidiados.

Depois das reformas “macro”, aquelas que enquadram a senzala no atacado, podemos ter certeza, chegará a vez das avenidas e praias. Vamos acabar com a estória de Avenida Paulista com “essa gente”, vamos acabar com pivetes nas praias. Os manos e minas que voltem para suas cavernas, o lugar que lhes cabe. Gente fina é outra coisa.

(*) - Professor aposentado, colaborador na pós-graduação em Ciência Política do IFCH da Unicamp, é coordenador de Difusão do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre Estados Unidos (INCT-Ineu). Seus livros mais recentes: “O Peso do Estado na Pátria do Mercado – Estados Unidos como país em desenvolvimento” (2014) e “Educação Superior nos Estados Unidos – História e Estrutura” (2015), ambos pela Editora da Unesp.