Anabolizantes comprometem funcionalidade do “colesterol bom”

Com a popularidade do estilo de vida fitness das academias, o uso de anabolizantes tem se tornado cada vez mais comum, apesar dos conhecidos malefícios para a saúde

Domínio Público/Wikimedia Commons

Pesquisa traz novas informações sobre o impacto de anabolizantes no sistema cardiovascular.

Larissa Lopes/Jornal da USP

Uma pesquisa do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas verificou mais um deles: o efeito desses esteroides na funcionalidade do HDL, a lipoproteína de alta densidade, mais conhecida como “colesterol bom”.

Ao final dos exames, foi revelado que um a cada quatro usuários de anabolizantes sofria de aterosclerose precoce, doença que não foi diagnosticada em nenhum dos outros grupos. A aterosclerose é uma doença caracterizada pelo acúmulo de placas de gordura em artérias coronárias. Segundo os pesquisadores, os anabolizantes estariam prejudicando a funcionalidade do HDL, que é o responsável por evitar que a LDL, a lipoproteína de baixa densidade ou “colesterol ruim”, se acumule nas artérias.

O estudo acompanhou três grupos distintos que passaram por exames de sangue e tomografias para a avaliação das artérias coronárias. Foram analisados 21 praticantes de musculação que faziam uso de anabolizantes, 20 praticantes não-usuários e dez pessoas sedentárias, que não praticavam musculação nem usavam anabolizantes. A mostra compreendia homens com uma média de idade de 29 anos.

“É como se o HDL não conseguisse identificar e separar as partículas ruins de colesterol para retirá-las do sangue”, explica Maria Janieire Alves, cardiologista do InCor e líder do grupo de pesquisa sobre o impacto da autoadministração de esteroides androgênicos anabolizantes no sistema cardiovascular. “Isto significa que os receptores do HDL em pessoas que usam anabolizantes estão apresentando defeitos. Além de estarem presentes em pouca quantidade, eles também não conseguem captar corretamente essas lipoproteínas presentes no sangue para jogá-las fora”, diz a cardiologista.

Além de filtrar as gorduras do sangue, o HDL também evita que o LDL se oxide nas artérias. Ele age como uma partícula protetora, pois, em caso de oxidação, o LDL tem um potencial ainda maior de inflamação. “Outros estudos já mostraram o desenvolvimento precoce de aterosclerose neste grupo. O ponto chave do nosso trabalho, agora, é descobrir um dos fatores que podem estar associados a isso”, afirma Francis Ribeiro de Souza, doutorando do InCor e principal autor do artigo que traz novas informações sobre o impacto de anabolizantes no sistema cardiovascular.

Em longo prazo, o uso desenfreado de anabolizantes pode causar insuficiência cardíaca.“Quando se fala sobre esses esteróides, há duas realidades diferentes”, analisa Souza. Uma é a da deficiência hormonal, quando alguém recorre aos anabolizantes porque precisa repor hormônios que estão em falta. Outra é a da busca pela força e pelo desempenho físico por parte de pessoas que não precisam dessa reposição hormonal. Os anabolizantes são uma categoria de hormônios análogos a testosterona que têm a função de aumentar a síntese de proteínas responsáveis pelo crescimento da musculatura.

Uma vez que uma pessoa começa a autoadministrar anabolizantes sem necessidade, a produção natural dos hormônios começa a ser inibida e cai. Essa alteração, por sua vez, pode causar problemas de saúde. “Pensando em estética, os anabolizantes cumprem com seu papel. As pessoas aumentam o porte muscular, ficam mais fortes, aumentam o desempenho físico. Mas em relação à saúde, eles não trazem nenhum benefício”, expõe Souza.

“O uso indiscriminado de anabolizantes causa alterações no perfil lipídico; diminui o HDL, que é o ‘colesterol bom’; e aumenta o LDL. Além disso, já foram observados em outros estudos alterações hepáticas, algumas associações com câncer, morte súbita, hipertrofia cardíaca e arritmia”, lembra o doutorando. “Só há malefícios para a saúde, de maneira geral”. Além dos casos de aterosclerose precoce, foram encontrados no grupo de usuários de anabolizantes da pesquisa do InCor alguns indícios de que a formação de placa de gordura estava se iniciando.

“Se a placa ainda não foi formada, ela provavelmente se formará logo, e isso leva a um fator trombogênico (geração de coágulos) muito elevado nesta população”, alerta Maria Janieire. Durante os exames, também foi diagnosticado um caso de úlcera em artérias coronárias e outro de embolia pulmonar, documentado em uma angiotomografia. Em longo prazo, as pesquisas apontam que o uso desenfreado de anabolizantes pode causar insuficiência cardíaca.

“Nós observamos que há um depósito maior de colágeno ruim no esqueleto fibroso do coração e isso pode levar a uma disfunção cardíaca no futuro”, diz a cardiologista. Por enquanto, o estudo foi feito apenas com homens, que são os principais consumidores de anabolizantes, mas com o aumento de consumo por parte das mulheres, o grupo de pesquisa ainda pretende estudar os efeitos nelas.

02 SETEMBRO temporarioSaúde do coração: por que os médicos pedem 'cintilografia'?

Uma em cada três mortes é causada por problemas cardíacos. No ano de 2030, a Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que doenças cardiovasculares serão responsáveis por quase 24 milhões de óbitos. No Brasil, dos 300 mil infartos que acontecem anualmente, 80 mil resultam em morte. As estatísticas são alarmantes e chama atenção o fato de que, mesmo aqueles que fazem check-up anualmente e se creem livres de risco, não são poupados. Nesse contexto, é cada vez mais comum sair do cardiologista com a solicitação de exames de imagem, como a cintilografia. O exame se mostra fundamental para checar se há placas de gordura e cálcio entupindo as artérias coronárias.
Na opinião do médico Lucas Carvalho, especialista em Medicina Nuclear da DI Imagem (Campo Grande/MS), as pessoas geralmente só ficam sabendo das artérias entupidas depois de sofrerem um infarto. “É isso que precisa mudar. Por mais eficientes que sejam os exames que compõem um check-up do coração, em determinados casos as placas que estão obstruindo parcialmente as artérias não são detectadas preventivamente. Porém, podem ser detectadas quando o paciente é submetido à cintilografia de perfusão miocárdica. Esse exame utiliza uma substância chamada radioisótopo. Quando injetada numa veia periférica, é captada pelo músculo do coração, gerando uma luminosidade que nos permite detectar lesões isquêmicas. Trata-se de um exame pouco invasivo que pode salvar vidas”.
De acordo com o especialista, exames como a cintilografia têm revolucionado o diagnóstico e o tratamento das doenças do coração, oferecendo ainda a vantagem de ser seguro e muito pouco agressivo ao organismo. “Pacientes pertencentes ao grupo de risco para doenças coronárias se beneficiam muito com esse tipo de exame – capaz de diagnosticar e avaliar a extensão e gravidade do quadro. Outra vantagem é permitir ao médico cardiologista definir com mais propriedade a conduta de tratamento a ser adotada em cada caso. Além de obter uma visão mais ampla da doença, poderá ser decisivo em relação à recuperação e qualidade de vida do paciente”.
Carvalho aponta outra vantagem da individualização do tratamento proporcionada pela cintilografia. “De modo geral, as pessoas estão bem informadas sobre os principais fatores de risco para doenças cardíacas. Hereditariedade, hipertensão, diabetes, níveis altos de triglicérides e colesterol, tabagismo e estresse são os principais. Ainda assim, seus hábitos alimentares e sua rotina costumam levar à obesidade, sedentarismo, ansiedade e depressão, que são péssimos para o bom funcionamento do coração. Como são fatores modificáveis, é importante que o paciente possa contar com exames que apontem exatamente as dimensões do seu problema quando ainda é possível prevenir o agravamento do quadro. Sendo assim, vale a pena discutir com o médico cardiologista os ganhos de se fazer uma cintilografia.”

(Fonte: Dr. Lucas Carvalho, especialista em Medicina Nuclear da DI Imagem (Diagnóstico Integrado por Imagem), de Campo Grande (MS) – (www.diimagem.com.br).

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