Crianças com microcefalia têm atendimento especializado

Não há cura para a microcefalia, mas os laboratórios estão cada vez mais perto da vacina contra a infecção provocada pelo vírus Zika

Jefferson Rudy/Agência Senado

Equipe multiprofissional do Hospital de Apoio de Brasília, com a mãe e o irmão mais velho de Maria Helena, de 1 ano.

Patrícia Oliveira/Especial Cidadania

A previsão do Instituto Evandro Chagas, órgão de pesquisas vinculado ao Ministério da Saúde, é de começar a aplicação em humanos neste segundo semestre, logo depois dos testes pré-clínicos (em primatas e camundongos). Paralelamente, o tratamento especializado avança, melhorando o desenvolvimento e a qualidade de vida dos pacientes.

A vacina é desenvolvida em parceria com a Universidade Medical Branch do Texas, Estados Unidos. Os primeiros resultados são animadores: apenas uma dose foi capaz de induzir o organismo dos camundongos a produzir anticorpos que protegem contra a infecção. A imunização de mulheres em idade fértil pode ajudar a prevenir a transmissão do vírus e, consequentemente, a microcefalia nos bebês.

A vacina não poderá ser aplicada em mulheres grávidas. Para elas, o Instituto Evandro Chagas desenvolve outra tecnologia, a partir do DNA recombinante do vírus. Por causa da complexidade do quadro clínico nos casos de microcefalia, o diagnóstico precoce é importante, pois o primeiro ano de vida é um período crítico para o desenvolvimento do cérebro.

No Distrito Federal, um protocolo da Secretaria de Saúde para investigação de doenças congênitas notifica os casos suspeitos, que posteriormente são encaminhados pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs) para o atendimento nos hospitais.

— Existe uma vigilância dentro de cada hospital regional. Temos um programa com o Ministério da Saúde para fazer a notificação. E de lá, a gente faz uma investigação na casa do paciente. Com os exames e todas as informações, a gente faz a previsão e encaminha para o ambulatório — explica a epidemiologista Patrícia Gonzaga.

Com a epidemia de zika, as gestantes que apresentam sintomas (febre, manchas pelo corpo e dor nas juntas) também passaram a ser acompanhadas. Já as crianças têm acompanhamento por até mil dias, mesmo as que nascem sem sinais da doença, pois ainda pode surgir um atraso no desenvolvimento.

A Principal modo de transmissão do vírus da zika é pela picada do mosquito Aedes aegypti. Gestantes devem ter atenção especialEnsinar a brincar
O Hospital de Apoio de Brasília conta com uma equipe formada por duas neuropediatras, uma fisioterapeuta, uma terapeuta ocupacional, um fonoaudiólogo, uma enfermeira e uma assistente social. Uma parte importante do trabalho deles é ensinar a criança com microcefalia a brincar. É tanta dedicação que alguns dos brinquedos são doados pelos próprios profissionais de saúde.

Atualmente, o hospital atende 19 crianças encaminhadas pelo Cievs. Uma delas é Maria Helena Santos, que nasceu há um ano com microcefalia e problemas na visão. A rotina da mãe, Thaise de Almeida Santos, de 29 anos, é levar a filha para as consultas médicas duas vezes por semana.

— Eu só me desesperei no começo, porque é um baque. É estranho, muda tudo na vida. Eu tive que pesquisar o que era microcefalia e entender que demora mais para o bebê se desenvolver. Eles falam no hospital para a gente não deixar ela cair, não deixar num cantinho quieta, para brincar com ela e estimular a fazer as coisas — relata Thaise.

O programa de reabilitação faz atendimentos periódicos para reduzir as sequelas da microcefalia nos bebês. São atividades de estimulação do desenvolvimento, com o treinamento dos pais para repetirem em casa o que aprenderam no hospital.

— A gente vai ensinando as mães a como brincar, a como fazer a criança sentar, a alimentação, a melhor postura para uma troca de fraldas, para dar um banho. Elas precisam se organizar — diz a terapeuta ocupacional Ana Paula Closs.

O trabalho em equipe ajuda a determinar qual é o melhor plano terapêutico para o paciente, como explica a fisioterapeuta Suyenne Figueiro Vieira.

— A criança pode ter dificuldade para segurar a cabeça, para rolar, para engatinhar. Às vezes ela pode não aceitar o toque, ter alguns movimentos repetitivos. Algumas também podem ter algum tipo de alteração na parte sensorial associado, então também se faz a estimulação visual e auditiva.

A neuropediatra Ellen Siqueira esclarece que a evolução do tratamento também depende da gravidade da lesão cerebral.

— No caso dos pacientes com microcefalia, há uma variedade muito grande na evolução, depende de cada criança. Na maioria dos casos a gente percebe um atraso no desenvolvimento. E a estimulação precoce é muito importante, o mais rápido possível, porque dá o melhor resultado.

Thaise acredita no tratamento e tem esperança de que a filha vai aprender a sentar e a caminhar.

— Ela vai andar, sim, se Deus quiser. E eu vou atrás dela para tudo quanto é canto — diz.

Casos de contaminação pelo vírus Zika vêm caindo, segundo o Ministério da Saúde
A investigação de pesquisadores brasileiros, principalmente do Nordeste, sobre a relação entre a microcefalia e o vírus Zika, transmitido pelo Aedes aegypti, deu ao Brasil papel de destaque na prevenção a novos casos. Tanto que a infectologista Celina Turchi, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Pernambuco, foi incluída na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2017.

No Brasil, só este ano, até o dia 10 de maio foram confirmados 293 casos de microcefalia e outras alterações do sistema nervoso de bebês causadas pelo vírus na mãe quando gestante. Desde o início das investigações, em outubro de 2015, houve a confirmação de 2.772 casos de microcefalia por infecção. A maioria dos casos em monitoramento está no Nordeste (47,4%), seguindo-se o Sudeste (33,9%) e o Norte (9,0%). Os cinco estados com maior número de casos em monitoramento são Bahia (18,0%), São Paulo (11,9%), Rio de Janeiro (11,2%), Pernambuco (9,5%) e Minas Gerais (8,3%).

A boa notícia é que, em maio, o Ministério da Saúde declarou o fim da emergência em saúde pública de importância nacional relacionada ao vírus Zika e à microcefalia. O período durou 18 meses. Até 25 de março, o Ministério da Saúde registrou queda expressiva dos casos de zika, resultado das medidas de combate ao Aedes aegypti, em parceria com os estados e municípios. Foram 4.894 casos no país, o que significa uma redução de 97% em relação a 2016.

Entre os fatores que contribuíram para a queda dos casos, está a mobilização nacional contra o mosquito. As grávidas são orientadas a adotar medidas como eliminar os criadouros, manter portas e janelas fechadas ou com telas, vestir calça e camisa de manga comprida e usar os repelentes permitidos.

Diagnóstico
A microcefalia é identificada pelo tamanho da cabeça da criança, bem menor que o de outras da mesma idade e sexo. Com menos espaço para o cérebro crescer, pode haver sérias consequências no desenvolvimento, como dificuldades na coordenação motora e equilíbrio, atraso no crescimento, na linguagem e no aprendizado, epilepsia e paralisia cerebral.

Nos exames pré-natais, a ultrassonografia é bastante precisa para diagnosticar as más-formações cerebrais. Mas também no nascimento e depois dele é possível detectar a microcefalia.

Além das infecções por vírus e das causas genéticas, vários fatores podem desencadear a microcefalia, como o consumo de drogas, álcool e alguns medicamentos durante a gravidez.

— A maior gravidade nessa infecção ocorre no primeiro trimestre da gestação, durante a formação dos órgãos do recém-nascido. O vírus pode prejudicar o desenvolvimento desses órgãos. E o principal deles é o sistema nervoso central, o cérebro da criança — explica o infectologista Fernando Gatti de Menezes, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Hospital oferece acompanhamento em nove capitais

DivulgaçãoOs hospitais da Rede Sarah também têm profissionais especializados para orientação às famílias e para a avaliação clínica e os exames necessários ao diagnóstico e ao acompanhamento das crianças com microcefalia. O tratamento é gratuito e pode ser agendado no site do hospital, que tem unidades em nove capitais: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Macapá, Rio de Janeiro, Salvador e São Luís.

Para levar os filhos aos hospitais, os pais podem conseguir passe livre no transporte coletivo por meio de laudos médicos que comprovem a doença. A criança também pode receber o benefício de prestação continuada, no valor de um salário mínimo mensal para comprar, por exemplo, medicamentos, fraldas e leite especial. O direito depende da renda mínima por pessoa da família.

Thaise está buscando esse benefício. Ela, que já tinha um filho de 7 anos, teve que parar de trabalhar para cuidar da filha.

— Dei entrada no benefício para ela e estou esperando.