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Dia mundial de combate ao abuso infantil 10/11/2017

Dia mundial de combate ao abuso infantil_

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No ano 2000, a Fundação Cúpula Mundial da Mulher (WWSF) lançou o ‘Dia Mundial de Combate ao Abuso Infantil’, que deve ser celebrado todo dia 19 de novembro. A data tem o objetivo de chamar a atenção para o problema do abuso infantil e para a necessidade de difundir programas que possam prevenir essas práticas. Nesta comemoração participam cerca de 130 países.

Tema muito importante e que precisa sair da sombra e vir à tona para que possa encontrar a cura. Com esse objetivo, o Jornal EMPRESAS & NEGÓCIOS começa uma campanha sobre o assunto. A cada sexta-feira, de hoje até o próximo dia 17, trará várias instituições e profissionais que abordarão o assunto. Acompanhe, leia, participe! Em nosso site (www.netjen.com.br), todas as matérias a respeito ficarão à disposição para leitura e pesquisa por tempo indeterminado.

 

Abuso sexual - uma tentativa fracassada de amar

Gianeh Borges (*)

Como se pode justificar um abuso como um movimento de amor? Ainda que seja um movimento fracassado de amar, existe amor?

Sim, o amor sempre está ali. Está na confiança, na relação filial, no pertencimento, na espera. 
Os relacionamentos são conduzidos inconscientemente pelas Ordens do Amor, conhecidas por Ordens Sistêmicas que nos trazem o princípio do pertencimento, do equilíbrio entre dar e receber e o da ordem/hierarquia. E quando algum desses princípios se rompem, trazem um novo movimento ao sistema familiar que fazemos parte, ele imediatamente vai buscar um novo equilíbrio para então compensar o ocorrido, e os eventos se repetem até que uma nova ordem se estabeleça e o dano seja reparado e reconhecido. 
Acompanhar os processos terapêuticos de abuso implica em “olhar para onde olha o amor”. O que aconteceu nesse sistema familiar? Onde está a dor do amor nesse sistema? Onde ele se perdeu?

Depoimento de uma filha:
“Uma sensação de estar alerta, vigilante, sempre me acompanhou, fez parte da minha vida. Ter qualidade de sono sempre foi impossível para mim. Quando criança me assustava nos momentos em que meu pai se aproximava da minha cama para me cobrir à noite, me incomodava. Tive dificuldades com a proximidade e convivência com homens, amigos, tios, primos, desconfiava de todos eles. Sentia esse desconforto e não entendia, ninguém conseguia explicar. Me tornei uma adulta rígida e reativa. Casei, tive filhos. 
Um dia recebi a notícia que meu pai tinha sido denunciado à polícia por ter abusado da minha sobrinha, sua neta.
Naquele momento de muito desespero com minha mãe, irmãos, marido e filhos, eu fiquei calma. Incrivelmente calma! Já havia me submetido a vários processos terapêuticos de constelações familiares onde tinha entendido algumas dinâmicas familiares que se mostravam diante das diversas crises emocionais, depressões que passei. E diante desse evento tudo foi se completando como peças de um quebra-cabeças, ficou claro. Agora eu estava diante do causador de todos os meus medos, inseguranças, desconfortos, desconfianças. A verdade se mostrava ali na minha frente, validava tudo que eu senti em toda a minha vida e ninguém acreditava. 
Entrar em contato com todas essas emoções, entendê-las, saber a sua origem, estar consciente, me fez sentir viva - agora eu sei! E com tudo isso a única coisa que eu realmente me importava naquele momento era tentar evitar que ele fosse preso. Então me ocupei de fazer o que era preciso. Cuidar do meu pai, protegê-lo, encaminhá-lo para tratamentos terapêuticos.
Passou-se alguns dias e então minhas filhas contaram que também já haviam sido abusadas pelo avô. Foi demais! Mais uma vez me senti impotente, não consegui proteger minhas filhas!
E novamente meu pai correu risco, risco de ser preso, risco de vida, pois tentou o suicídio.
E novamente eu o amparei!
Buscamos tratamento para todos.” (L.S.M)

Depoimento de um pai:
“Eu sempre quis ter uma família, sonhei que seria um bom pai, um pai diferente, nunca gostei de bater, de ser agressivo. 
Mas nunca imaginei que um dia faria isso.
Eu magoei minha família, envergonhei a todos. Perdi a confiança que tinham em mim, eles passaram a me ver como um traidor.
Sinto muita tristeza, pois nossos filhos não freqüentam mais a nossa casa, ficamos sozinhos minha mulher e eu. E eu sei que esse é o preço por tudo de errado que fiz. A saudade dói demais, é um preço muito caro e sei que tem que ser assim.
Faço acompanhamento terapêutico sistêmico com as constelações familiares e desde a primeira vez que participei vi o quanto tudo isso que sinto é muito forte, entrei em contato com as memórias da minha infância, com o que aconteceu comigo, com meus irmãos, sobrinha, pai, avôs. Nunca vou esquecer da constelação, da força que o sistema mostrava para que eu não saísse de lá, daquele lugar. Pude entender que todos fazemos parte de um mesmo movimento. E às vezes me vejo em situações que quer me quebrar, e eu preciso de força para lutar contra isso, e por muitas vezes eu me torturava, não tinha consciência e agora estou conseguindo ter mais autodomínio, digo pra mim mesmo, hoje não, amanhã não, e vou administrando todo esse sentimento. Vou reconhecendo e aceitando fazer parte da minha vida, da minha família de origem. 
Estou tendo oportunidade de falar sobre tudo isso, de alguém me ouvir.
Por muitas vezes fico pensando o que vou fazer, se podia ter feito tanta coisa boa. Eu sinto muita falta, saudade dos meus filhos e tem hora que eu acho que não vou dar conta, essa distancia fica cada dia mais difícil, dói demais, eu sempre estive junto, cuidava de tudo.
Mas sei que o erro foi meu, sentia um conflito muito grande, ficava tudo embaralhado, e depois não dava para entender o que tinha feito, o que tinha acontecido. Mas agora eu posso ver que fiz de livre e espontânea vontade, eu assumo minha responsabilidade, eu consigo entender e sei que tudo tem conseqüências.
É imperdoável - não é só errado, é imperdoável!
E me trouxe paz poder repetir essas frases:
“Lamento o que fiz - reconheço que lhe fiz um grande mal, e arco com as conseqüências, e assumo a minha responsabilidade!”
Assim, comecei a compreender que sou um homem que comete erros e que assumo os meus erros e agora posso olhar para os meus filhos como pai e fui sentindo um pouco mais de esperança, a dor foi diminuindo, a angústia começando a ir embora. Poder lembrar desse lugar, desse papel de pai, tem sido fundamental pra mim.Antes, quando algum de nossos filhos vinha nos visitar eu ficava constrangido, perdido sem saber o que conversar. Agora estou tendo a oportunidade de me ver como o pai deles, posso liberar o pai novamente e permitir ao pai viver a saudade dos filhos, o amor pelos filhos, me aproximar quando chegam, ficar ali por perto conversando.
Perdi o contato com nossos netos, mas foi necessário, eu reconheço. 
E agora eu fico com a imagem de ser apenas o pai, e isso me traz força para continuar.”(S.L.S)

Depoimento da filha:
“Quanto mais me permitia passar pelos processos terapêuticos mais foi possível tomar conhecimento do meu corpo, das memórias. Entendi que estou a serviço, como algo que precisava acontecer, e esse é o meu mundo e me vem a frase que “já passou”. Daqui pra frente é o que eu vou dar conta, o que eu permito. Comecei a passar novas informações para meu corpo, descobrir o que eu gosto, o que posso sentir, permitir novas descobertas em novos contextos, promovendo um campo adequado de saber e perceber.
Estou construindo uma nova relação com meus pais. Precisamos nos afastar. Não culpo mais minha mãe por não ter me protegido, assim como também não consegui proteger a minhas filhas. Estou saindo do conflito da moral, para o poder amar. Estabelecendo limites, assim como a membrana que envolve o coração e o protege de traumas e atritos. Conhecendo a distância adequada, experimentando, escolhendo, tendo a liberdade de construir um novo caminho de acesso. 
Um dia passei de carro por meus pais na rua, vinham em sentido contrário, dei sinal, desci do carro e fui até eles. Tinha sido aniversário do meu pai naqueles dias e ninguém tinha ido até a casa deles, eu o cumprimentei assim que ele desceu do carro, estava congelado, rígido e eu o abracei. Ficamos por um bom tempo nesse abraço e a todo momento eu dizia para mim mesma - “solta...solta...solta, voce esteve doente esses dias e agora voce pode usufruir desse abraço”. Foi um longo abraço de alma. Nos soltamos, ele se endireitou, nos despedimos e seguimos.
Me sinto em paz quando digo:
“Pai eu vejo você e vejo seus erros. Deixo você com seus erros e tomo apenas o meu pai, e fico com meu pai.”
Agora me permito olhar para o essencial, ver as falhas, sair do conflito, da ilusão, da perfeição. Reconhecer que existe esse comportamento. Estou aqui apenas como a filha. E devolvo aos meus pais todos os questionamentos. E aceito tudo, exatamente como é. E amo de olhos abertos.” (L.S.M)

Sobre as constelações familiares:
As constelações familiares é uma abordagem sistêmica fenomenológica desenvolvida pelo psicoterapeuta, pedagogo, filósofo alemão Bert Hellinger que nos apresenta uma psicoterapia onde os clientes reproduzem a imagem interna que têm da própria família com a ajuda de membros do grupo. Esse método se baseia na suposição de que os transtornos emocionais e as doenças psicossomáticas podem existir em decorrência de uma ruptura na ordem do sistema familiar e, portanto, de um emaranhamento sistêmico. Uma pessoa do sistema está conectada com o destino de outra pessoa. Se esse emaranhamento relevante é reconhecido, o que normalmente é possível quando uma constelação familiar é usada, e a ordem no sistema é restabelecida, isso significa que a razão do sintoma foi invalidada e uma mudança é possível. (Franke-Bryson, 2013, p.142)
Bert Hellinger redescobriu, a respeito do amor nos relacionamentos íntimos, que se voce quiser que o amor floresça, deve fazer o que ele exige e evitar fazer o que o prejudica. O amor segue a ordem. A cura sobrevém quando nossas relações íntimas são recolocadas nesta ordem. Revela como o amor inocente das crianças perpetua cegamente o que é prejudicial e como as agressões à Ordem do Amor, por membros mais antigos da família, afetam a vida dos demais.
Uma constelação não é para mudar as circunstâncias do tempo passado, porque isso é uma ilusão que não resiste a experiência da pessoa afetada. É concordar com o que foi e se tomar a si mesmo. 
Às vezes, tudo o que é preciso para estar em paz com a infância ou a adolescência é apenas isso: “salvar” a si mesmo, a criança ou adolescente que fomos na situação do passado, e levá-los para si mesmo de maneira amorosa e cuidadosa, deixando o passado para trás.
Há muitas pessoas que lutam com sua infância ou com o seu passado, especialmente se ocorreram episódios extremamente dolorosos para a pessoa em questão. Conseqüentemente, isso leva a um pesar sem fim, em que a pessoa se sente como uma vítima das circunstâncias do passado e persiste nessa atitude. Ou leva a uma dissociação interna: uma parte só olha para a frente e não quer saber, sobretudo o que tem que ver com sua experiência dolorosa do passado. Este “eu sobrevivente” (veja Franz Ruppert) torna-se duro e insensível em direção à parte da pessoa que tem sofrido. (Revista Conexão Sistêmica Sul, Peter Bourquin, 3/2013)
Ao invés de olhar para uma vítima e um agressor, numa situação de abuso, e ver apenas dois indivíduos, podemos ampliar nosso olhar e ver a família como um todo e analisar claramente a complexidade dessa situação. Abrir mão dos nossos julgamentos e ideais a favor das pessoas envolvidas. A favor da vida que segue, que pede mais vida.
Quando permitimos que esse amor secreto seja visto e reconhecido, podemos através de frases curadoras, lembrar a essa filha, que apesar do resultado ter sido mau, ela tentou fazer algo de bom. Quando as crianças sentem conscientemente o seu amor e nós o confirmamos, elas compreendem que são boas. Isso é um grande alívio. Quando as vitimas conseguem proferir as frases com autenticidade, livram-se de seu emaranhamento no problema dos pais. Os filhos não precisam esperar que os pais mudem antes que eles atuem. Eles estão prontos para seguir caminho, independentemente ou não, sintam remorsos ou não. 
Incluímos a todos e protegemos a totalidade desse sistema familiar e reconhecemos o amor que os conduz.

(*) - Formação em Hipnose Ericksoniana (ACT Institute, EUA), Terapia Orientada em Foco e Trauma Complexo - FOTCT (ACT Institute, EUA), Focalização (ACT Institute, EUA), em Constelação Organizacional e Coaching Sistêmico, pela Infosyon (InternationalForum for System Constellations in Organisations, Alemanha). Especialização Internacional em Pedagogia Sistêmica, (ISPAB, Alemanha), título de Maestria em Novas Constelações emitido pelo Instituto de Constelaciones Familiares (Insconsfa, Espanha, por Brigitte Champetier de Ribes). Formação Internacional em Constelações Estruturais, com o Espanhol Guillermo Echegaray (Geiser Works, Uruguai)Docente e Coordenadora dos cursos de extensão em Abordagem Sistêmica Fenomenológica, Direito Sistêmico, Constelações Estruturais, Constelações Organizacionais e Pós Graduação em Educação Sistêmica na Faculdade Católica SEDAC/MT. Presidente do Instituto OCA
em Cuiabá/Mato Grosso, Brasil. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo." data-mce-href="mailto:O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. - www.institutooca.com.br

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