Daniel Medeiros (*)

O neurologista português Antônio Damásio, na obra “Espinosa tinha razão”, organiza uma série de questões preliminares sobre a pergunta quem somos nós.

“A mente e o corpo são duas coisas diferentes ou formam apenas uma? Se eles não são semelhantes, atribuem-se a duas substâncias diversas ou a uma só? Se são duas substâncias, a da mente vem em primeiro lugar e é a causa da existência do corpo e do cérebro, ou bem a substância corporal vem primeiro e seu cérebro causa a mente? Como essas substâncias interagem?”

Penso nessas perguntas todas enquanto minha timeline pipoca com notícias sobre adolescentes se mutilando e se matando como se o corpo fosse um item descartável de uma mente que continuará para vibrar com os likes sobre sua própria aventura. Ah, se tivessem lido Espinosa...
Especialistas de todos os gêneros debruçam-se avidamente sobre o “problema”, como se gente se matando ao longo da História fosse uma raridade soterrada pelos escombros da barbárie de um passado distante e que só agora volta para nos assombrar.

Pois não é. Só no Brasil, a cada hora, uma pessoa se mata. Para de respirar. Interrompe o processo vital. Inicia o processo de deterioração sem volta. E o que será que leva tanta gente a optar por esta forma de deixar de viver? Isso considerando os que optaram. Não tenho dúvida de que a pergunta do neurologista é a pista a ser percorrida para lançar alguma luz sobre esse mistério.

Na medida em que não somos capazes de formular uma resposta para essa pergunta, a continuidade da existência, o cotidiano, torna-se uma contingência, um “pode ser” tipo casa sem alicerce, sujeita a cair ao vento um pouco mais forte. E sempre venta. Quando o dia a dia torna-se um acordar/dormir e entediar-se sobre o que fazemos no meio, uma hora acaba parecendo que é demais. E nessa hora cinza um letreiro começa a piscar diante dos olhos cansados: “Por que não encurtar o itinerário”?

Penso que a busca por uma resposta satisfatória para a pergunta “quem somos nós?”começa, inevitavelmente, com a formulação da pergunta. E esse parece-me ser uma das pontas soltas do problema. É terrível quando se vive sem qualquer questionamento; vive-se por adesão; vive-se agregando euforias com etiquetas, sorrisos de selfies.

Quando se é jovem, então, tudo se complica com a soma das expectativas sobre habilidades e esforços incompatíveis com os desejos. Uma corrida de 10 quilômetros e você, aos oitocentos metros sabendo que não se manterá de pé quando chegar aos segundo quilômetro. Então, ora, por que continuar?

Creio que a ideia da “baleia azul” não passa de uma forma de transformar em game o que, para muitos (“Eles estão errados! Errados!”), tornou-se já um jogo sem upgrade em uma máquina sem mais memória para ser atualizada: a vida.

(*) - É doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor no Curso Positivo, de Curitiba.

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