Gabriel Rossi (*)

Assim como algumas instituições e parte da sociedade brasileira, os profissionais de publicidade e marketing vivem uma crise existencial.

Cenário acentuado pela triste conjunção econômica e política do Brasil. Na ansiedade de posar de moderno e de se engajar com a ideologia de uma minoria equivocada, que ainda coloca o capitalismo como a besta-fera, muitos destes profissionais esquecem que é justamente este sistema econômico que nos torna o que somos.

Joãozinho sabe que só o capitalismo faz um Nespresso. É hipócrita a pessoa que se lambuza destas benesses do capitalismo e advoga em prol de causas socialistas. O profissional consciente de sua atividade tem noção desta premissa. E sim, o que é bom tem que ser bem remunerado.

É fundamental lembrar que cada vez mais o marketing e a publicidade têm um papel essencial tanto no sucesso como na sobrevivência das empresas. Cada dia é uma batalha para se manter no mercado. Uma boa agência (orientada por uma consultoria de marketing) é um verdadeiro canhão. É preciso ser assim. Chegam a ser infantis os soldadinhos socialistas de fim de semana que ganham a vida sendo mecânicos do capital com remuneração invejável para as condições brasileiras.

Postura tão adúltera quanto em um romance de Nelson Rodrigues. Não é possível esquecer que o ato de construir e gerenciar marcas está totalmente linkado ao mercado e à perspectiva capitalista. E não é possível cortar este cordão umbilical.

No caso Amazon x Dória, por exemplo, a influência política dos responsáveis pela propaganda é bastante óbvia. Como se uma cidade inteira já não tivesse visto o efeito do projeto Cidade Linda, do atual prefeito, a marca explora e expõe – de forma negativa – os muros cinzas de São Paulo com o vídeo intitulado #MovidosPorHistórias.

Ao invés de oferecer alternativas efetivas para a atual gestão, a Amazon fez uma crítica que não foi bem interpretada pelos cidadãos, ainda mais depois da resposta do prefeito, obtendo doações de diversas empresas concorrentes que souberam se promover em cima desse fiasco.

Quando se espera que nós - agentes de marketing (meu caso) ou publicidade - tomemos uma posição firme, com vergonha na cara, o que acontece é justamente o contrário. Ficamos robotizados por ideologias ultrapassadas que vão, inclusive, totalmente na contramão de nossa prática. Não é à toa que economistas, cientistas políticos e artistas têm mais influência na opinião pública do que nós, profissionais de comunicação e marketing.

Nos esquivamos, nos infantilizamos, nos subtraímos. Resultado: cada vez mais nossa profissão está no limbo, sendo desprestigiada e ironizada. Talvez fosse mais sincero vestir o Peter Drucker que existe em nós. Ou o Mad Men.

Eu me orgulho em ser um profissional de marketing e acredito demais em lucro. Acredito no capitalismo (mesmo ciente que ele não é perfeito). Acredito e o defendo. Afinal, também sou, indiretamente, pago para isso. Assim como todos que estão nesse mercado.

Publicitários e profissionais de marketing marxistas sofrem de dissonância cognitiva. São oximoros.

(*) - Palestrante profissional em marketing, estrategista especializado na construção e no gerenciamento de marcas e reputação e diretor-fundador da Gabriel Rossi Consultoria, com passagens por instituições como Syracuse/Aberje, Madia Marketing School, University of London e Bell School.

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