Jorge Steinhilber (*)

O Brasil é um dos países mais desiguais social e economicamente. O abismo entre ricos e pobres é secular e serve, tradicionalmente, como principal termômetro da injustiça social.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada pelo IBGE, demonstra que a renda nacional continua concentrada nas mãos de uma minoria. Os 10% mais ricos da população detinham, em 1999, 45,7% da renda total do país, e os 10% mais pobres continuam, somente, com 1% do bolo. Não há dúvidas de que a solução deste mal passa pela educação, pela formação dos jovens e pela aquisição de conhecimentos de cidadania, de direitos e deveres, que poderão promover uma reflexão crítica.

A educação é a chave da porta que separa os países desenvolvidos dos mais pobres e em desenvolvimento. O futuro do mundo pertence às nações que atribuíram e continuam a atribuir prioridade absoluta à educação. Ao lado da formação cidadã, elas constroem o alicerce para o desenvolvimento de qualquer nação. O Brasil precisa levar essa questão a sério e agir de forma concreta, não somente nos períodos eleitorais através de discursos. Do mesmo modo, os parlamentares do Congresso Nacional precisam promover esta reforma no pensamento.

Atualmente, está em tramitação na Câmara um anteprojeto de Lei que reforma a Lei Pelé e o Estatuto do Torcedor. O anteprojeto, analisado pela Comissão Especial de Reformulação da Legislação do Esporte, propõe um retrocesso ao atribuir a indivíduos sem formação superior a condição de Treinador de Futebol. Pretende-se, deste modo, permitir que ex-jogadores sem o devido conhecimento científico, biológico, pedagógico e ético, atuem como treinadores de crianças, jovens, mulheres, pessoas com deficiência, entre outros, colocando em risco a saúde desses indivíduos.

No lugar de relativizar questões legais, os parlamentares deveriam instigar o estudo ao longo da carreira esportiva, bem como incentivar as entidades do desporto a exigir dos atletas a formação, o que possibilitaria ao atleta uma futura inserção profissional, no esporte ou não. Isto não é utopia. Temos como exemplo a Confederação Brasileira de Ginástica e clubes de Futebol como o Grêmio, que incentivam a formação dos seus atletas. Várias Confederações Esportivas também são exemplos recentes de incentivo para que os técnicos sejam profissionais graduados em Educação Física.

A distorção histórica fica por conta do desinteresse das entidades do Sistema Desportivo Nacional, da politicagem reinante e dos aproveitadores, que percebem neste filão um excelente meio de obter lucros sem nenhum compromisso com o desenvolvimento do país ou da construção de uma sociedade democrática. Infelizmente, estão dando pouca importância e relevância à qualidade em detrimento da quantidade.

O esporte é um meio e, portanto, requer que seja ensinado, orientado e ministrado por profissional com conhecimentos científicos, biológicos, pedagógicos e éticos. A formação possibilita uma intervenção adequada, segura e digna, voltada ao desenvolvimento humano e compatível com suas individualidades. Sem uma orientação esportiva e, no caso particular, sem orientação para que as escolinhas de Futebol sejam conduzidas por profissional qualificado e competente, contribuímos para a manutenção de um círculo vicioso dos desníveis sociais.

Portanto, temos a obrigação de mudar os rumos da história, de reverter este processo corrosivo e dar a todos o direito constitucional de atendimento digno e de qualidade. Não se trata apenas de uma questão legal, garantir o direito das crianças e jovens ao esporte dinamizado por profissional habilitado é um dever de todos nós.

(*) - É Presidente do Conselho Federal de Educação Física (www.confef.org.br).