Rogério Cardozo (*)

Não é novidade para ninguém a falta de educação financeira no Brasil e o quanto os maus hábitos atrapalham o dia a dia do consumidor.

Muitos se endividam por conta da falta de organização ou mesmo porque calculam equivocadamente o que seu poder aquisitivo pode – ou não – comprar. Por outro lado, há brasileiros que precisam de empréstimos para manobras pontuais, como uma dívida que logo poderiam sanar, ou mesmo para um investimento, mas não conseguem captar dinheiro, pois a maioria das instituições financeiras e bancos ainda limitam suas pesquisas de perfil aos cadastros do Serasa e do Serviço de Proteção ao Consumidor (SPC).

É relativamente comum esquecer de pagar uma conta de luz – às vezes até porque a correspondência se perdeu nos Correios – e ficar com o nome ‘sujo’. Não há dúvida de que esse fator deve ser considerado ao analisarmos o histórico de um cliente, mas deve ser apenas um dos muitos fatores que levam à decisão de crédito. Histórico, como o nome bem diz, é um panorama a longo prazo das boas e más decisões financeiras de cada consumidor. Ou seja, alguém que paga regularmente todas as suas contas, ao deixar de quitar uma delas, receberia o benefício da dúvida.

Nos Estados Unidos, por exemplo, este histórico é tão forte que é levado em consideração pelos consumidores a todo o momento – americanos sabem na ponta da língua o que ganham anualmente de salário bruto e líquido, incluindo benefícios, e o quanto de suas rendas poderiam comprometer em compras maiores, tais como o aluguel de um apartamento mais caro, uma reforma ou a compra de um carro. Cada um zela por seu score de credito individual, que seria uma tabela de pontos de crédito, que aumentam ou diminuem conforme o comportamento financeiro do consumidor.

Nos últimos três anos, as fintechs, empresas híbridas de finanças e tecnologia, têm aberto as portas do país para o conceito de Cadastro Positivo. Ao nascer com a análise de dados em seu DNA e levando em consideração um grande volume de fatores para compor um verdadeiro panorama sobre o perfil de cada consumidor, estas companhias conseguiram incluir muita gente no sistema financeiro que antes era deixada de lado.

Além disso, birôs de crédito tradicionais, como SPC e Serasa Experian, conhecidos por serem consultados para avaliar quando um nome é ou não negativado, começaram a oferecer também o serviço de banco de informações de adimplência, ou seja, de contas pagas. Apesar de importantes, estes ainda são os primeiros passos rumo à instituição de um Cadastro Positivo no País. No futuro, temos a expectativa de que esse sistema esteja disponível para todas as instituições financeiras certificadas pelo Banco Central e reúna todas as compras e movimentações financeiras feitas em um determinado CPF.

Com ele, consumidores com um bom histórico de crédito poderão receber ofertas melhores de taxas, customizadas de acordo com o seu perfil de risco. Se beneficiariam também pessoas que, mesmo com o nome temporariamente sujo, costumam pagar todas as suas dívidas em dia. Além disso, o banco de dados evitaria que um mau pagador ou fraudador conseguisse empréstimos em diferentes frentes, não permitindo que adquirisse dívidas que não poderá quitar.

Outro ponto-chave do Cadastro Positivo será a diminuição da burocracia para o consumidor ao adquirir um item de alto valor, solicitar um limite maior do cartão de crédito, empréstimo, financiamento ou subsídio. Isso porque o cidadão já teria um histórico traçado e não precisaria reunir tantos documentos. Além de melhorar a experiência do usuário, o dinheiro estaria sendo melhor distribuído e teria maior fluxo, sendo reinvestido mais vezes e acelerando a economia. Positivo para todos!

(*) - É diretor-executivo da Enova/Simplic no Brasil (www.simplic.com.br).