Marun David Cury (*)

A saúde no Brasil tem se transformado em um campo minado. É difícil saber onde pisar sem uma bomba explodir repentinamente.

Os pacientes sabem bem o que é isso, pois, certamente, são aqueles que mais sofrem com as agruras da rede pública. Os problemas são incontáveis e estão em todas as unidades: acesso difícil, falta de medicamentos, equipamentos sucateados, recursos humanos escassos e insuficiência de leitos. Óbvio que em condições tão inóspitas o rastilho de mazelas se alastra por todos os lados.

Os profissionais da saúde são duramente prejudicados, o que torna cada vez mais desafiante a assistência em níveis satisfatórios. Nós, médicos, por exemplo, somos obrigados, quase que diariamente, a nos desdobrar para oferecer ao cidadão um atendimento de padrão melhor. Na atual circunstância, porém, nem toda a boa vontade e compromisso do mundo são suficientes para solucionar o caos do sistema.

O lamentável é que médicos e outros profissionais da equipe multidisciplinar vêm sendo responsabilizados equivocadamente pela fragilidade gerada pela combinação de três males crônicos: o descaso de políticos, a gestão incompetente e o subfinanciamento. Assim, salas de espera de hospitais, postos e outras unidades de saúde ganham ares de trincheira de guerra. Há pacientes, familiares e acompanhantes que partem para agressão quando demoram a receber atendimento ou não concordam com a triagem que abre espaço aos casos mais graves.

Inúmeras pesquisas recentes confirmam o aumento da beligerância. Um estudo recente do Cremesp atesta que 80% dos médicos do Estado de São Paulo (77,7%) já sofreram violência ao menos uma vez no trabalho, entre episódios físicos, verbais e psicológicos. Outros levantamentos anteriores tiveram conclusões semelhantes. Mas até agora nenhuma atitude séria foi tomada pelas secretarias de Segurança Pública e de Saúde para aumentar a segurança.

Pior é que a violência contra o médico vem de cima para baixo, da esquerda para a direita e em todos os demais sentidos que você puder imaginar. Hoje, começa no próprio aparelho formador, que, mesmo com mensalidades milionárias, dá como contrapartida ao estudante um aprendizado de baixo nível em estrutura precária. Muitos cursos não dispõem de hospital-escola, tem uma grade curricular frágil e corpo docente sem capacitação.

O resultado, naturalmente, é a invasão da linha de frente do atendimento por quantidade enorme de graduados sem conhecimento básico. Péssimo para os pacientes que correm o risco e também para a classe médica, cuja imagem é arranhada com o aumento de erros denunciados aos conselhos de medicina. Não bastassem os distintos complicadores até aqui citados, o governo do Brasil continua possibilitando que profissionais sem comprovação de conhecimento técnico científico atendam nossa população, via Programa Mais Médicos.

Até pouco tempo atrás, eles invadiam apenas a área pública. Entretanto, por obra e graça da Agência Nacional de Saúde Suplementar, vêm recebendo aval para clinicar também para planos de saúde, o que amplia os riscos de uma fatia dos cidadãos para todos os brasileiros. Diante deste conjunto de absurdos, aos médicos resta resiliência, mas sem esmorecer jamais.

É preciso também união em suas entidades representativas e inclusive uma cobrança maior para que órgãos fiscalizadores ajam realmente em defesa da classe, não ficando somente jogando para a plateia com pesquisas atrás de pesquisas, além de entrevistas na mídia só para satisfazer egos pelas luzes das câmeras.

(*) - É diretor de Defesa Profissional da Associação Paulista de Medicina.

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