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Julio Gavinho (*)

O ano de 1982 foi memorável para mim. Dois fatos importantes apertam-me o coração pela simpatia e dor que ambos me causaram naqueles dias e que ainda me causam hoje, só de lembrar.

O Brasil perdeu a copa que foi ganhar na Espanha. Pintamos as nossas ruas, aprendemos a canção brega do Junior (voa canarinho, voa...), colorimos o Naranjito e colamos os olhos nos extraordinários momentos do fabuloso ataque da seleção. Nem Waldir Peres nos assustava. Aí vieram o Cerezo e o Rossi na área, e no nosso sonho entrou água. Doeu paca. Foi uma repetição da copa de 78 aonde éramos “bonitos por natureza”, “batíamos um bolão” e, pimba.
Perdemos, lindos com um 6x0 da Argentina no Peru.

No mesmo ano eu li duas vezes seguidas o romance “Feliz Ano Velho”, do escritor Marcelo Rubens Paiva. Ele narra no livro o seu acidente, que o deixou tetraplégico depois de um mergulho chapado com amigos chapados em um lago com 50cm de profundidade e as consequências disto pela sua vida. Marcelo é filho do engenheiro Rubens Paiva, torturado, assassinado e desaparecido pelo estado brasileiro a mais de 40 anos. Sua família viu a história se repetir ano após ano, como em um dia da marmota de tristeza e desesperança. Feliz ano velho.

Vivemos um momento de crise histórica na hotelaria brasileira aonde, certamente, levaremos muitos anos para retornar aos patamares de diárias e ocupação de 2008. 2008 é o nosso 1982. É o nosso “agora vai!”. É o nosso mergulho na dura pedra da realidade.

Nas cidades que vivem de turismo, como Foz do Iguaçu, Maceió ou Rio de Janeiro o buraco ficou ainda mais embaixo porque a queda do turismo afeta hoteleiros, mas também bares e restaurantes, lojas, micro-empresários e toda uma cadeia de fornecedores que depende do seu voucher.

Novamente não há previsão de grandes campanhas publicitárias internacionais, grandes esforços coordenados em segurança e infraestrutura, entre outros movimentos que fariam a diferença. Feliz ano velho.

O governo federal anunciou, faz uns dias, uns cobres (R$450.000.000) através do FUNGETUR para quem chegar primeiro e conseguir pôr a mão nesse capilé. Novamente as estruturas de garantias exigidas, o tempo de análise de crédito e o périplo para liberação são piores do que as dos bancos privados. Como as taxas (spred + taxas) são muito maiores no privado do que no público, o empresário do turismo brasileiro não pega nem um nem outro, e depois sai por aí dizendo que não há crédito. Verdade, a história se repetindo. Feliz ano velho.

Eu espero um contradita em 2018. Eu espero um agente público que me diga “não é bem assim! Este ano vamos gastar milhões em uma campanha! Vamos aparelhar a polícia! Vamos facilitar o acesso ao crédito subsidiado como tem os outros setores da economia”. Vai... lá vou eu sonhando de novo com um “Joesley” de dinheiro do BNDES para nós, que trabalhamos duro.

Enquanto eu não acordo deste sonho ou não sou desautorizado por ministérios, secretarias e autarquias do setor de turismo, vou desejando a você um 2018 diferente. Por favor, diferente.

Com as minhas expectativas bem baixas só me resta desejar a você um bom ano.
Feliz ano velho.

(*) - É executivo da área de hotelaria com 30 anos de experiência, fundador da doispontozero Hotéis, criador da marca ZiiHotel, sócio e Diretor da MTD Hospitality.

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