Idésio Coelho (*)

Em 2017, transcorrem 85 anos da publicação do best seller “Admirável mundo novo”, romance futurista do escritor inglês Aldous Huxley.

O emblemático aniversário da obra, referencial no segmento temático de ficção científica e política, suscita reflexões sobre o impacto da tecnologia nas pessoas, nos processos interativos, no trabalho, nas empresas e na civilização como um todo. O livro, num impressionante vaticínio, alerta sobre os riscos da padronização humana, no caso resultante da engenharia genética e da cibernética, na busca utópica pela sociedade perfeita.

Pois bem, se utilizarmos a tecnologia apenas para a automação de processos e produção de modelos uniformes de serviços e produtos, seremos todos iguais, na vida e no mercado, como os membros das castas descritas na obra de Huxley! O que nos torna únicos, diferentes e, portanto, competitivos em tudo o que fazemos é o modo como utilizamos máquinas, equipamentos, softwares, aplicativos e os meios digitais para ir além, tomar boas decisões e encontrar soluções customizadas e inovadoras.

O diferencial humano torna-se mais fundamental e decisivo à medida que a tecnologia vai evoluindo, o que ocorre de modo cada vez mais rápido. Se não o mantivermos vivo e não o exercitarmos no cotidiano, seremos cada vez mais previsíveis e dispensáveis, no iminente advento e disseminação da internet das coisas, da inteligência artificial, da impressão 3D e dos novos avanços da TI.

Manter o diferencial humano não significa, como às vezes se interpreta, utilizar toda essa tecnologia apenas para a automação de processos, mantendo-se as análises na base da intuição e do improviso. O grande salto é tornar o suporte tecnológico uma ferramenta eficaz para a tomada de decisões com base em informações concretas e a busca de soluções inovadoras. Aplica-se, aqui, o conceito de Business Analytics, abordagem que utiliza algoritmos avançados para processar registros de dados, possibilitando análises seguras e amplas.

As empresas estão explorando ferramentas mais sofisticadas, inclusive que "aprendem" ao longo do tempo, como robôs e inteligência artificial, que terão impacto crescente nos escritórios de contabilidade e firmas de auditoria. Algumas empresas do setor têm feito crescentes investimentos, mas é importante que, na medida do possível, todas modernizem-se.

Devem somar-se a tudo isso, contudo, princípios éticos, conceitos de compliance e o respeito aos bons preceitos da governança, às normas e às leis. A prevalência de tais valores é fundamental numa era em que a tecnologia avançada também pode ser usada para a prática de fraudes, crimes cibernéticos e manipulação de dados. Tais situações são particularmente relevantes para profissionais da contabilidade e auditores independentes.

Assim, não é sem razão que 89% dos entrevistados em nova pesquisa da ACCA (Association of Chartered Certified Accountants), instituição global para a formação e educação continuada de contadores, com sede em Londres, tenham afirmado que “princípios e comportamentos éticos fortes tornar-se-ão mais importantes na era digital”.

Foram ouvidas 10 mil pessoas em todo o mundo. Oitenta por cento acreditam que os profissionais da Contabilidade que se baseiam nas boas práticas da profissão contribuem para a capacidade das organizações de manter a ética; e 94% defendem que, nesta era digital, ainda se apliquem os princípios do International Ethics Standards Board of Accountants (IESBA).

De fato, o Código de Ética para Contadores Profissionais desse organismo é importante, sendo adotado como base para normas nacionais em mais de 120 países, dentre os quais a maioria dos integrantes do G-20, inclusive o Brasil. Os dados evidenciam com clareza o que a sociedade espera de contadores e auditores independentes, em especial no cenário brasileiro de acirrado combate à corrupção e denúncias diárias contra autoridades, políticos e empresários.

Nesse contexto, é preocupante outro dado revelado na pesquisa da ACCA: um em cada cinco respondentes admitiu ter sentido pressão para comprometer seus princípios éticos ao longo dos últimos 12 meses. Isto demonstra de modo taxativo o significado dos diferenciais humanos da firmeza de caráter, inteligência emocional e consciência cívica na interação com a tecnologia. São antigos valores que qualificam o novo mundo digital!

(*) - É presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon).

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