Marisa Ester Rosseto (*)

O que está em jogo, na escola, é o que nos constitui como sujeitos de uma relação de alteridade

A discussão sobre diversidade nunca esteve tão atual, inclusive é até pauta da novela da Rede Globo, “Força do Querer”, trazendo fortemente a dor, a angústia e as dificuldades da vida da personagem transexual Ivana e de seu entorno, particularmente, de seus pais. A escola não tem como deixar de fora esses temas, essas questões que atravessam as vidas que se encontram nos diferentes espaços de relações e aprendizagens, pois a escola é o próximo lugar da diversidade! É necessário compreender as diferentes formas de ser, estar, pensar e viver na contemporaneidade.
A reflexão perpassa por incômodos números. Segundo a ONG Transgender Europe, o Brasil é o país que registra – em números absolutos – o maior número de assassinatos de travestis e transexuais no mundo. Tratando agora de outra minoria, as mulheres, o cenário continua acinzentado. Segundo dados recentes do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano – considerando agressões físicas, 503 mulheres foram vítimas a cada hora.
Trazer para os currículos as discussões acerca da diversidade e inclusão são fundamentais, mas não são suficientes: precisamos refletir e produzir espaços que possibilitem movimentos de viver/experienciar as diferenças. O que está em jogo, na escola, é o que nos constitui como sujeitos de uma relação de alteridade.
A manifestação da alteridade revela atitude que vai além do respeito, pois, quando nos tratamos como iguais, na relação de alteridade, não há julgamento e nem mesmo atribuição de qualquer valor. Por exemplo, quando há uma discussão entre duas pessoas de crenças religiosas diferentes e estas apresentam suas visões acerca de um mesmo tema, as duas visões são aceitas; hoje, o que nos cabe é o “e” não o “ou”. Nesse caso, nem sempre há o certo ou o errado, apenas existem visões diferentes, sem uma ser melhor ou pior que a outra. A experiência e a construção da alteridade pressupõem sujeitos possíveis e não iguais.
E, no exercício da alteridade, é preciso reler as nossas (de todos envolvidos na relação da escola) representações de mundo, passando por questões como “Quem é o diferente na escola?”, “Como ele é visto?”, “Por quais olhos e vias devemos enxergar o diferente na escola?”. Para se desenvolver uma relação de alteridade é preciso propiciar a experiência do encontro na escola. Mas como, então e efetivamente, fazer?
Quando profissionalizamos a gestão, os resultados, as pessoas da escola sem perder a ideia do espaço “tridimensional” (aluno, professor e objeto de conhecimento) onde se constrói a reflexão e o diálogo permanente; quando não geramos a aula em torno apenas da aprendizagem numa relação individual, privatizada e sim de construção, de troca; quando usamos as tecnologias educacionais de forma adequada, sem transformar os espaços de experiências das salas de aula em centros de conexões, mas sim em espaços de experiências.
Quando organizamos e planejamos as formações dos docentes, sabendo a serviço de quem e que a escola está; quando não permitimos que nossas escolas sejam capturadas e entrem na mesma lógica do mundo da competitividade empresarial, da competitividade pelas capacidades, não permitindo que a escola perca a possibilidade de viver a “experiência” como um direito.
Assim, temos hoje um grande desafio posto: como manter uma ideia séria de educação em um contexto novo?

(*) - É Diretora Educacional do Colégio Marista Arquidiocesano, do Grupo Marista.