Reinaldo Dias (*)

O verão europeu de 2017 ficará marcado pela emergência de um novo fenômeno social, a turismofobia, associado a manifestações de repúdio à presença de turistas em diversas cidades.

A fobia é uma aversão exagerada a algo ou alguém, nesse caso o alvo são os turistas. O fato é que o turismo por mais que seja caracterizado como uma atividade dinâmica e que traz riquezas aos locais que são destinos dos viajantes, alardeado como uma verdadeira indústria sem chaminés, também traz problemas para as comunidades quando mal planejado. O turismo é hoje uma das principais atividades econômicas do planeta, considerado como uma das mais importantes geradoras de emprego e renda.

Tem sido o instrumento utilizado por diversas localidades para promover o desenvolvimento local pela sua característica de envolvimento de toda a comunidade que pode se beneficiar do fluxo sazonal de turistas. No entanto neste ano, os problemas sociais vinculados ao turismo afloraram de tal maneira que não se pode ignorá-los.

O problema que emergiu em alguns destinos foi provocado pelo excessivo número de viajantes que afloraram em algumas cidades provocando o colapso em diversos serviços essenciais e aumento de forma abusiva do aluguel de residências e de produtos oferecidos pelo comércio.

As cidades receberam os turistas num primeiro momento com euforia, sem controle do fluxo de visitantes e recebendo um volume que excede sua capacidade de suporte, desembocou em seguida para o conflito. Contribuiu também para essa situação a falta de civilidade de muitos turistas caracterizada pelo mau comportamento, falta de educação e manifestações ruidosas prejudicando a convivência harmônica com a população local.

O noticiário recente mostra que a situação tem se agravado em algumas cidades se traduzindo em agressões aos turistas. Em Barcelona que recebe 23 milhões de turistas por ano (18 milhões de estrangeiros e 5 milhões de espanhóis) numa população de 5 milhões em sua área metropolitana, as manifestações têm sido particularmente violentas com pichações em muro, manifestações de rua e atividades repentinas visando a assustar os viajantes.

A população reclama da dificuldade em alugar imóveis para moradia, pois para os proprietários é mais vantajoso oferece-los aos turistas que pagam até quatro vezes mais o aluguel. O turismo se generalizou como atividade de lazer e entretenimento, já não é patrimônio de uma elite, mas se popularizou de tal modo que pode ser acessado pela maioria da população. É decorrência direta da emergência de uma classe média global e baixo custo das companhias aéreas e dos meios de hospedagem.

O que antes era um privilégio, agora é percebido como uma necessidade, física e mental, e quase um direito, convertendo-se num hábito social. Por essa razão não é difícil prever que o turismo continuará crescendo. No passado, os turistas que tinham determinados lugares para ficar e visitar nas cidades, atualmente se misturam com as pessoas das comunidades locais. É um fato positivo pois se mesclam com pessoas de origem e culturas distintas provocando o enriquecimento cultural e o aumento da tolerância para com o outro.

No entanto, ocorrem excessos, resultando em atrito provocado quando aquele que vem de fora não respeita os códigos de comportamento da comunidade residente, muitas vezes porque o desconhece. Essa falta de civilidade é repudiada na maioria dos destinos de todo mundo, revela falta de educação e desrespeito aos hábitos e costumes locais.

A turismofobia é decorrência da falta de planejamento da política turística que não define com clareza a capacidade de carga dos destinos de tal modo que a comunidade local receba os benefícios da atividade e não os problemas que podem descaracterizar a localidade tornando-a mesmo pouco atrativa para futuros visitantes.

Uma política pública de turismo sustentável deve levar em consideração não somente o aspecto quantitativo de aumento do fluxo turístico, mas privilegiar a qualidade da visitação tanto no que diz respeito ao turista quanto a comunidade local.

O modelo tradicional do turismo de massa se caracteriza pela monocultura turística, privilegia a indústria turística e ignora a necessidade de manter a qualidade de vida da população local. Esse turismo de negócios deve ser substituído por uma política pública de turismo visando sua sustentabilidade, que privilegie a manutenção da qualidade de vida, da cultura e da natureza local, que na realidade formam o atrativo que permitiu o afluxo de visitantes a essas localidades.

Não é demais repetir: sem planejamento público não há atividade turística sustentável.

(*) - É professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais e Mestre em Ciências Políticas pela Unicamp. Autor de vários livros e artigos na área de turismo.